No século XVI, bem antes de Natal existir, o estuário do Rio Potengi já era palco de operações clandestinas e alianças entre franceses e indígenas potiguares. Os navios gauleses aportavam disfarçadamente nas margens do rio para contrabandear pau‑brasil – a valiosa madeira corante da época, essencial à indústria têxtil europeia. Conheça agora a história do porto pirata do Rio Potengi.
A presença francesa no rio Potengi
Segundo o cronista Gabriel Soares de Sousa (1587), os franceses utilizavam o estuário do Potengi como um importante porto para embarcar pau‑brasil capturado dos indígenas potiguares, além de realizar reparos e reabastecer com provisões frescas (“refrescos”). Frei Vicente do Salvador também registra que os franceses iam ao Rio Grande (Potengi) para comerciar com os potiguares e até atacavam navios portugueses, sequestrando pessoas e mercadorias.
Arqueólogos identificaram vestígios de uma feitoria, ou entreposto comercial, na região chamada Alto do Portinho — cerca de 3 km acima da barra — com cerâmicas datadas do século XVII, mas sobretudo ossos de animais, sugerindo um ponto de parada e comércio rápido, não uma habitação permanente.
Outro local relevante era a margem do rio denominada Refoles (ou Rifoles), nome dado em homenagem ao navegador francês Jacques Riffault. Ele teria fundado ali um porto e uma pequena vila que chegou a ser considerada fortaleza autônoma, de piratas mesmo. Riffault mais tarde participou da fundação de São Luís, no Maranhão.
Funcionamento do entreposto-pirata
Navios franceses entravam no Potengi na maré alta, deslizavam silenciosamente pela vegetação de mangue até o rio Doce, e carregavam rapidamente o pau-brasil. Era preciso fazer tudo rápido, pois na maré baixa o navio ficava preso e exposto. O uso do mangue e da escuridão era essencial para não serem detectados pelos portugueses da costa.
A relação entre franceses e indígenas era de cooperação mútua: os índios recebiam presentes como espelhos, armas e bugigangas em troca da extração do pau-brasil. Essa proximidade criou motivações para os indígenas hostilizarem os portugueses quando chegaram, e explicam o sucesso dos entrepostos franceses.
A reação portuguesa
A presença insistente desses entrepostos levou a Coroa Portuguesa a mobilizar esforços. Em 1597, as tropas comandadas pelo capitão-mor Manuel Mascarenhas Homem alcançaram a barra do Potengi e iniciaram, em janeiro de 1598, a construção do Forte dos Reis Magos, precisamente para conter essas incursões francesas.
Com tropas reforçadas até abril do mesmo ano, Portugal consolidou o controle da região, expulsou os franceses e garantiu a posse da capitania. O forte se tornou o marco da fundação da futura cidade de Natal, em 25 de dezembro de 1599.
Perpetuação do Porto Pirata do Rio Potengi
Mesmo após a expulsão formal dos franceses, o Alto do Portinho continuou sendo utilizado por contrabandistas — agora portugueses e ingleses — até pelo menos o século XIX. Eles abasteciam engenhos e portos como os de Ceará‑Mirim, Macaíba e Guarapes com mercadorias como chá, vinho, perfumes e louças importadas, sem pagar impostos reais.
Escavações de 1999 encontraram objetos como cachimbos, piteiras e louças — mas quase nenhuma cerâmica utilitária — reforçando a tese de ponto de comércio rápido e não residência permanente.
Um legado histórico
O que hoje é Rio Potengi foi um dos primeiros entrepostos piratas do Brasil. A presença de franceses, sua cooperação com indígenas e sua habilidade em esconder-se na maré e manguezais deram origem ao mito do “porto pirata”. O geograficamente traiçoeiro estuário era ideal para fugir da vigilância portuguesa, e a construção do Forte dos Reis Magos simboliza a reação lusa à pirataria no litoral potiguar.
Fontes utilizadas
Esta matéria foi elaborada com base em registros históricos de cronistas coloniais como Gabriel Soares de Sousa e Frei Vicente do Salvador, e em pesquisas arqueológicas e históricas publicadas por especialistas locais. As principais referências foram:
- Natal das Antigas – Piratas no Rio Grande
- Natal das Antigas – Refoles: o porto francês
- Wikipédia – Invasões Francesas no Brasil
- Wikipédia – Forte dos Reis Magos
As informações foram cuidadosamente revisadas para garantir fidelidade aos fatos históricos sobre a presença francesa, o comércio clandestino e o papel do Rio Potengi na formação da cidade de Natal.
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